Cabeçalho do site de A Mulher Alcoólica

 

 

Depoimentos

 

Onde estão as nossas mulheres?ONDE ESTÃO NOSSAS MULHERES?

Recentemente fui visitar um grupo numa pequena cidade  e ao final da reunião uma companheira veio agradecer minha presença feminina no grupo.          Desabafou sua dificuldade em ser a “única” mulher alcoólica do lugar.          Sabemos muito bem que isto não é verdade. Existem mulheres alcoólicas sofrendo sua dor e deixando de procurar ajuda por medo de serem desmoralizadas perante a sociedade que permanece enrijecida diante do preconceito e discriminação de gêneros.                                                                  

A cultura machista, mais comum em cidades menores, impede a passagem pela porta de uma sala de A.A., mais estreita às mulheres.            

Quando ingressei na Irmandade de A.A., ouvia com muita atenção o trecho do preâmbulo que diz: “Somos uma irmandade de homens e mulheres...” Sentia-me favorecida, acolhida, incluída no todo, pela Unidade. Contudo, olhava para o lado e me perguntava: “Onde estão as mulheres alcoólicas desta cidade de um milhão de habitantes? Éramos somente nós, cinco mulheres, as únicas alcoólicas desta cidade?”                                                                   

Vivi o mesmo drama da companheira que se sente sozinha e o pior é que às vezes eu mesma me discriminava. Era difícil encontrar identificação nos depoimentos dos companheiros, mas eu me esforçava. E com esperança a fim de resolver meu problema comum: o alcoolismo... Agarrava-me nisso.                 Às vezes me sentia “envergonhada por ter sido a única mulher da família vítima do alcoolismo e de ter admitido que perdi o domínio da minha vida”. A sociedade aceita mais facilmente o alcoolismo, pelo qual são acometidos os homens, principalmente em cidades provincianas que têm nome de família a zelar e status social a preservar. Mesmo quando a doença já não tem mais controle, ainda assim, escondem ou tentam esconder da própria. Já vi na família quadros tristes da famigerada NEGAÇÃO.                                                                        Voltando ao preâmbulo, nos dias atuais pouco vejo na sociedade discursos ou falas que incluam vocábulos femininos no seu conteúdo. Os artigos, pronomes, substantivos femininos são engolidos pela generalização masculina. Em auditórios cheios de mulheres e poucos homens, ouvem-se: “Boa noite senhores...”, “peço a todos a gentileza...”, “Você mesmo pode encontrar a saída”... e daí seguem-se inúmeras situações cotidianas que passam despercebidas, mas que mascaram a discriminação de gêneros.  A.A. concede a nós mulheres, o sentimento de pertencer e fazer parte. Somos homens e mulheres que compartilhamos nossa recuperação. Recebi a dádiva do Poder Superior de me mudar para o Rio de Janeiro onde encontrei muitas mulheres nas salas de A.A. Minha recuperação está ainda mais fortalecida porque não me esforço mais para encontrar identificação.                                         Companheiras contam suas histórias sem medo do julgamento. Compadeço-me das companheiras solitárias das pequenas cidades e agradeço a CORAGEM de cada uma por terem vencido as barreiras do preconceito.                Cada mulher que passa pela porta, quando entra e fica, me sustenta dentro de A.A. e é maravilhoso conviver com companheiras atuantes em A.A. contando com bravura suas histórias, trabalhando no CTO, participando de Comitês de Serviços e cumprindo encargos importantes em A.A. como um todo e sendo responsáveis pelas tradições.                                                                    Sou uma mulher em A.A., dentro de uma Irmandade de homens e mulheres que respeitam princípios igualitários, incluídos na mesma oportunidade de uma vida digna e feliz.

Juliana

 


Alcoolismo femininoAlcoolismo Feminino

         A mulher, apesar da resistência masculina, passiva, mas persistente, vai galgando, a cada dia, novos patamares na hierarquia social. Transpõe barreiras jamais imaginadas. Não é este o lugar adequado para discutir se isto é boa ou má coisa. Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões alheias à Irmandade. Não tem, pois, pontos de vista sobre os movimentos de liberação feminina e nem sobre qualquer outro assunto. Não podemos, todavia, deixar de enxergar uma realidade cada vez mais gritante. As mulheres não somente atingiram as cúpulas das empresas, as cátedras, os mais altos níveis da administração, mas também tomaram de assalto os bares, boates e botecos. É cada vez maior o número de mulheres portadoras da doença  alcoolismo. Enquanto isso, a participação das mulheres em nossas salas de recuperação, comparativamente com a dos homens, é muito pequena. Talvez não chegue a dez por cento. As mulheres precisam desesperadamente da recuperação tanto quanto os homens. Talvez o preconceito esteja barrando aquelas companheiras, impedindo-as de se aproximarem do nosso programa de recuperação. Não sabemos exatamente o que acontece. Esta matéria pretende apenas estimular uma reflexão sobre o assunto. As soluções deverão brotar das discussões nos grupos, principalmente nos grupos. Estas considerações deverão, necessariamente, levar em conta o fato de a mulher alcoólica não ser, inevitavelmente, uma promíscua. E se, por acaso, algumas delas desceram à promiscuidade durante a fase de alcoolismo ativo, certamente não procuram Alcoólicos Anônimos para assim continuarem. Ao procurar Alcoólicos Anônimos, a mulher vem em busca da recuperação física, moral, emocional e espiritual.                                                                   

Assim devem ser recebidas, tratadas e respeitadas. Talvez algumas continuem promíscuas mesmo depois de parar de beber. Terão reduzidas chances de permanecer sóbrias por muito tempo, embora algumas o consigam. Mas isto é um problema pessoal e quase sempre passageiro. E não é exclusivamente das mulheres. Ele também alcança os machões. Com a prática do programa de recuperação quase sempre, as coisas se acertam, para ambos os sexos. O rio volta ao seu leito natural. O que não se admite é, em nome de preconceitos machistas, permitir que milhares, talvez milhões, de companheiras morram afogadas nas bebedeiras.  Elas têm direito à recuperação tanto quanto os homens.

A.


 

O Primeiro Passo é mais difícil para a mulherO Primeiro Passo é mais difícil para a mulher

 

         Por que as mulheres não procuram Alcoólicos Anônimos?

MP900444553[1]

         A sociedade aceita o homem bêbado, mas a mulher bêbada é olhada com nojo e desprezo e por isso mesmo tem muita dificuldade em admitir que é uma alcoólica. Tem vergonha perante amigos, empregos, marido, filhos, família em geral. Muitas bebem em casa, outras nos bares.

 

         Outra questão é a chegada na sala de Alcoólicos Anônimos. Por que a maioria que ingressa, não fica? A mulher chega carente, com medo e vergonha. Vê uma sala cheia de homens e se assusta.

         Lembro-me da minha chegada na sala. Olhar assustado, medo de tomar aquele café que tanto ofereciam e ao mesmo tempo perguntava para mim mesma: “O que estou fazendo aqui?” Ingressei e fiquei trinta dias na sala. Depois resolvi me afastar com a desculpa que na sala só havia homens.

Um companheiro me alertou que lá estavam meus verdadeiros amigos. Pediu para que eu parasse por um minuto e pensasse na época de minha ativa, quando ficava enfiada no boteco com aquele monte de homens me assediando. Voltei para sala e vi que lá era meu lugar, porém temos que tomar cuidado com a luxúria dentro da sala. Esta imperfeição, além de afastar companheiros e companheiras da sala pode nos levar ao primeiro gole.

A mulher que ingressa numa sala de A.A., conforme vai entrando em recuperação começa a sofrer pressão do marido por causa de ciúme e acaba se afastando da sala. Nessa hora ela tem que ser firme em sua decisão de continuar em recuperação e mostrar para ele que é melhor vê-la dentro de uma sala de A.A. do que dentro de um bar novamente.

Outra coisa que afasta a companheira é a responsabilidade com a casa e os filhos.

No livro Viver Sóbrio há um lema que diz o seguinte:  “Primeiro as coisas Primeiras”. A companheira pode pesar o que é melhor para ela naquele dia e organizar-se como tal.

Sou companheira e sei como foi difícil dar o Primeiro Passo e estar em recuperação.

Agradeço ao Poder Superior, as companheiras e companheiros por estar sóbria hoje. 24 horas de serenidade.

Regina

  


QUEBRANDO BARREIRASQUEBRANDO BARREIRAS

         Há algumas vinte e quatro horas eu ingressei na Irmandade de Alcoólicos Anônimos em busca de uma solução para o meu problema, pois sou alcoólica e homossexual. Já sofri preconceitos em relação à minha opção sexual.

         Pelo fato de ser alcoólica sei que a Terceira Tradição me dá total garantia para fazer parte desta Irmandade de homens e mulheres e hoje me encontro muito bem fazendo minha recuperação no Grupo GSL.

         Estou cada dia mais consciente da minha doença e muito grata a Deus por estar me dando esta oportunidade. Venho melhorando como ser humano com a prática dos Doze Passos e também com o serviço de Alcoólicos Anônimos. Tudo isso é para o meu crescimento espiritual.

         Minha vida mudou muito depois que me aceitei como alcoólica, como homossexual e como ser humano.     

         Falando ainda de preconceito, vejo que o maior de todos é o meu em relação a mim.

         Conforme fui me aceitando como sou e comecei a praticar os Doze Passos que me são sugeridos, minha vida começou a florir e o que era antes um fardo, tornou-se mais leve e a qualidade da minha recuperação ficou genuína. 

Existem muitos preconceitos e não vou fechar os olhos para isso, mas, que comece por mim, fazendo minha parte, quebrando todo tipo de ideia preconcebida em relação a tudo.

         Esta Irmandade me dá condições de não sofrer mais.

         Quando cheguei em A.A. estava num estado de guerra comigo mesma. Acreditava que bebia por ser homossexual e não, alcoólica. Logo, não via nenhum futuro para mim.

         Para minha felicidade, eu fiquei e aí começou uma busca interna.

         Não me conhecia, não sabia quem era aquela moça, mulher, alguém com 38 anos que buscava incessantemente a felicidade.

         Não sabia que ela, que eu tanto buscava, estava o tempo todo comigo.

         Comecei esta modificação que o programa de recuperação sugere e está dando certo.

         Hoje sou uma pessoa um pouco melhor.

         Foi preciso fazer as pazes comigo (quarto e quinto Passos) para gostar de mim, sem preconceito.

         Acredito muito neste Deus amantíssimo que vem salvando minha vida a cada dia.

         É preciso haver mais tolerância e, a cada dia, eu melhoro esta qualidade.

         Para a intolerância, aceitação é a solução.  

Anônima

 


POR QUAL RAZÃO NÓS FOMOS OS ESCOLHIDOS?

POR QUAL RAZÃO NÓS FOMOS OS ESCOLHIDOS?

 

DEUS, em sua infinita sabedoria selecionou um grupo de homens e mulheres para serem os mensageiros deste milagre: - levar Alcoólicos Anônimos aos que sofrem!

Não se dirigiu ao orgulhoso, ao famoso ou ao afortunado e sim aos bêbados, chamados a vergonha do mundo e disse:

- “Entre suas mãos fracas e trêmulas depositarei uma Virtude que vai muito além da amizade. A você foi dado o que foi negado aos mais cultos, aos cientistas, às esposas ou às mães, sacerdotes ou pastores.

         Este dom de recuperar alcoólicos foi concedido a você e deve ser usado desinteressadamente, com tolerância, porque não limitei a sua aplicação a nenhuma raça, credo religioso ou condição social.

Você não foi escolhido pelo seu talento excepcional, portanto seja prudente sempre que o triunfo acompanhar seus esforços.

         Talvez os homens cultos, físicos, cientistas, mais eloquentes que você realizassem melhor esta missão, mas você foi escolhido porque fora desprezado pelo mundo e a sua longa experiência como bêbado, o fez, ou pelo menos deveria tê-lo feito humilde, compreensivo e alerta aos gritos de angústia que veem dos corações solitários de alcoólicos de todas as partes.

Guarda sempre em sua mente aquele dia em que entrou pela primeira vez em Alcoólicos Anônimos disposto a abraçar o seu programa de vida, um programa  poderoso pela Minha graça e oferecido a  você quando demonstrou vontade de modificar sua vida sob Minha orientação.”

 Esta é a razão pela qual NÓS FOMOS OS ESCOLHIDOS.

 

1) Eu me chamo Alessandra, sou uma alcoólica adicta em recuperação. Tenho 37 anos e estou há 11 anos em recuperação de álcool e droga e há um ano sem tabaco portanto, estou limpa de toda droga. Adorei seu site e o que precisar de minha ajuda pode contar comigo.

Afinal nossas histórias são muito parecidas, só muda o personagem. Só Por Hoje e sempre continuo indo às reuniões para que eu possa sempre agradecer; para não perder esta vida maravilhosa que tenho hoje livre da angústia e da obsessão do álcool, das drogas e do tabaco. Obrigada (Alê)

2)A Mulher Alcoólica Todos diziam que eu era muito jovem para parar de beber! Quando terminei o segundo grau, aos 17 anos, minha imagem era a de "filha-modelo", e demonstrei isso ao ganhar uma bolsa de estudos de quatro anos para a faculdade.

De início eu bebia apenas em festinhas e nos fins de semana. Fui eleita para vários cargos estudantis. Só que, em virtude de notas baixas e por ter sido vista bebendo durante uma excursão da faculdade, acabei perdendo o respeito de todos. Ao terminar meu primeiro ano, perdi também a minha bolsa de estudos.

Quando completei 18 anos, meus pais acharam que eu precisava de férias. Eu e meu pai tínhamos nos desentendido por causa das bebedeiras dele e de meu noivado com um rapaz de uma turma que andava de jaqueta de couro preta.

Então, para restabelecer a paz em casa, fui para um hotel-fazenda. Ali, à beira da piscina, comecei a beber diariamente em companhia de outros estudantes em férias. Neste ambiente, beber todos os dias, das 10 horas da manhã até à noite, parecia-me simplesmente "beber socialmente".

Voltei para casa a contragosto, com medo de que este novo modo de beber precisasse ter fim. Obrigaram-me a voltar para a escola e decidi reagir com "maturidade", dando um jeito para ser reprovada.

Neste segundo ano de faculdade a bebida tomou conta da minha vida. Se bebesse antes e ir para a aula, sentia-me embaraçada e com vergonha. Mas, depois de algum tempo convivendo com esses temores, comecei a beber para conseguir ir às aulas, arrumar namorados, ir a alguns jogos e festas.

Não ficava mais rodando pelo campus e por isso  juntei-me a um grupo de hippies. Eu não queria mais estar perto de meus amigos antigos. Os sentimentos de culpa e de vergonha não me deixavam à vontade com eles. Nem com os hippies consegui me integrar. Com um grupo ou outro sentia-me uma estranha.

No final de meu segundo ano de facu1dade, aos 19 anos, consegui meu objetivo: fui reprovada.

Certa ocasião fui visitar o Al-Ateen (para filhos adolescentes de alcoólicos) pois o alcoolismo era problema de meu pai, eu pensava.

Depois comecei a ficar preocupada porque passei a me identificar mais com os AAs. do que com o Al-Ateen. Então deixei de ir.

Na noite do Ano Novo realmente notei como eu bebia. Para poder atingir aquele nível de autoconfiança, para me libertar de minha solidão, de meus medos e sentimento de culpa, eu bebia depressa e em grandes goles. Quando atingia esse nível, não podia mais parar de beber.

No outro dia, fui a uma reunião aberta de A.A. onde ouvi uma mulher contar a sua história de como ingeria a bebida alcoó1ica quando mocinha.

Para mim aquilo soava familiar. Ta1vez eu pudesse me tornar uma alcoó1ica, pensei. Ta1vez já fosse!

Foi assim que entrei para Alcoólicos Anônimos. Mas, aos 19 anos, era "muito jovem". Dizia para mim mesma e para os outros: "Não posso ter a1egria sem álcool. A vida está passando por mim. Estou perdida".

Voltei a beber - e voltei para A.A.

Novamente pensei que era muito jovem; procurei outros membros de A.A. que concordavam comigo - e voltei a beber.

O medo, o isolamento, a culpa, o remorso e o desespero cresciam à medida que meu alcoo1ismo progredia. Ainda assim retomei a faculdade.

Certo final de semana, marquei encontro com um namorado em outra universidade, a fim de assistirmos aos jogos e comemorações de final de ano.

Saí cedo do dormitório para escapar das outras moças e conseguir bebida. Voltei em cima da hora marcada com meu namorado. Levei-o para tomar umas e, quando chegou a hora de ir aos jogos, convenci-o a ficar bebendo comigo. Depois eu me "apaguei" e não me lembrava de ter assinado o registro de entrada no a1ojamento.

O pânico tomou conta de mim no dia seguinte. Mas os bons amigos que estavam comigo me asseguraram que eu não havia feito nada embaraçoso.

Mesmo assim, sentia-me doente, de ressaca, cheia de ódio e com nojo de mim mesma. Quando me vestia, não me suportava o1har no espe1ho. Meu orgulho tinha sido atingido. Era minha primeira ressaca e meu segundo apagamento.

Lá se iam as duas desculpas que eu usava para me convencer de que não era alcoólica. Fiquei durante aquele dia todo dizendo a mim mesma: "Nunca mais vou beber de novo". Então eu pensava:- "Bem, isso é o que aquelas pessoas de A.A. diziam quando as coisas pioravam para elas".

Naquela noite peguei um ônibus para casa. Cheguei a tempo de assistir a uma reunião de A.A. Eu queria mudar meu modo de vida. Não desejava ser uma ateísta dependente de bebida. Desejava me libertar do medo, do isolamento e da necessidade de viver fingindo. Eu queria autoconfiança.

Desta vez acreditei nos membros de A.A. quando disseram que a autoconfiança viria com a sobriedade.

Desta vez tive uma nova atitude: "Se outros pensarem que ainda sou muito jovem, isto é problema deles. Eu pretendo ficar".

Esta mudança em minha vida começou uma semana antes dos meus 21 anos. Retornei à faculdade e com um ano no programa de Alcoólicos Anônimos fui eleita novamente representante de meus colegas. (C.)

3)A Mulher Alcoólica Com a sobriedade algo novo entrou em minha vida!

Estava espiritualmente arruinada muito antes de Alcoólicos Anônimos entrar em minha vida e muito antes que o alcoolismo penetrasse, como um parasita, sob a minha pele.

Não tinha nada, nenhuma fé à qual me agarrar. Não tinha fé nos homens porque, juntamente com a bebida, havia perdido a fé em mim mesma. Não confiava em ninguém, porque os outros não passavam de meros reflexos de mim mesma e eu não podia confiar em mim.

Fiquei sóbria em A.A. e, como por milagre, o cálido fluxo da realidade, que temera durante tanto tempo, inundou-me e não tive mais medo.

Comecei a imaginar o porquê. Juntamente com a sobriedade, alguma coisa nova entrara em minha vida. Comecei a me preocupar pelos outros. Esta palavra, "preocupação", juntamente com sua irmã "consideração", eram estranhas para mim.

Havia acreditado que era capaz de me apaixonar; havia me considerado uma mãe carinhosa, mas estas emoções, percebo agora, haviam sido reflexos do meu interesse em mim mesma. Nada penetrava para além do meu eu.

No início da sobriedade, comecei a sentir compaixão pelos outros bêbados; depois pelos meus filhos e então pelo meu ex-marido.

Esta compaixão, um sentimento acompanhado mais tarde pelo amor, abriu a porta de uma maciça fortaleza dentro de mim, que estivera trancada. Agora havia alguma coisa criando raízes. Comecei a “sentir” pelos outros, a ser capaz de e por momentos muito breves me colocar no lugar dos outros.

Novos mundos se abriram. Comecei a entender o mundo a minha volta. Eu não era o centro do Universo.

Comecei a observar meus filhos. Eram pessoas pequeninas e importantes. Percebi que nunca os havia tratado, enquanto estava bebendo, como algo mais do que pequenas máquinas que eu houvesse criado como se tivesse juntado partes de um brinquedo e ficasse orgulhosa com isso. Vi-os começar a florescer, à medida que os tratava de outra forma.

Estendi a mão para ajudar alguém, às vezes apenas ouvindo e senti um estranho contentamento por ser capaz de ajudar - uma incrível descoberta para mim! Desenvolvi minha própria versão do que é espiritualidade. Espiritualidade não significa que tenho que ser como os santos! Significa que devo me preocupar com o meu próximo. Somente desta forma é que poderei receber a graça de Deus, meu Poder Superior!

Não preciso procurar nada além dos Doze Passos e do poderoso enunciado da Oração da Serenidade, "aceitar as coisas que não podemos modificar".

Minha resposta pessoal está ali, na palavra "aceitar".

Aceitar o lugar do homem no plano universal. Aceitar minha vida como uma partícula ínfima do todo.

Nenhum de nós pode sequer sondar as glórias e as regiões desconhecidas do Universo, mas podemos viver na Terra amando uns aos outros. Com as ferramentas de Alcoólicos Anônimos podemos aprender um pouco a respeito desta dádiva preciosa que é nossa entrada para a espiritualidade humana. (Anônima)


O ALCOÓLICO QUE AINDA SOFRE PODE ESTAR SENTADO AO MEU LADO

Nestas poucas linhas gostaria de contar minha experiência.
Quando cheguei em A.A., há alguns anos, comecei a sentir o prazer
e a alegria de viver sem a bebida, a qual me havia atormentado por mais de
trinta anos. Comecei a ver um mundo diferente, que até então eu não
conhecia.
Tomado pela euforia e inexperiência achei que todas as pessoas deveriam compartilhar comigo deste meu mundo.
Então, eu "saí por aí", transmitindo a mensagem de A.A. em bares, tentando levar gente à força para a sala, indo a residências, presídios, escolas, palestras em comunidades terapêuticas etc.
Confesso que muitas vezes me tornei inconveniente junto a pessoas que não  queriam ou nem precisavam de ajuda. Com o passar do tempo, adquirindo mais experiência e ouvindo os mais antigos, formei outro conceito sobre transmitir a mensagem. Levo-a aonde for, desde que alguém estenda a mão pedindo ajuda e queira me ouvir; desde que se sinta preparado para receber a mensagem.
Caso contrário, prefiro passar a mensagem no Grupo - aliás, foi lá
que eu a recebi, quando os companheiros me esclareceram que eu sou
portador de uma doença progressiva, incurável e de fim fatal, se não fosse
detida a tempo.
Sinto hoje a importância de transmitir a mensagem nos Grupos quando chego, pois não são apenas os novatos que precisam de uma palavra de fé e esperança; muitas vezes, os membros mais antigos, sentados ao nosso lado, podem estar precisando ouvir nossas experiências, nossa palavra de aceitação, amor e humildade.
Por isso, para mim, o Grupo é um dos lugares mais importantes para Trabalhar com os Outros.

FLORIANO


Transformação

Ao ingressarmos em A.A. qualquer que seja o tamanho do nosso sofrimento, de nossas perdas, do que estamos deixando para trás cremos haver encontrado a solução, o remédio para os males que nos afligiam e, desesperados, desesperançados, dizemos: SIM ao que for que nos apresentarem; aceitamos sem titubear, sem medo de errar; acreditamos estar a salvo.
Isto ocorre em virtude do nosso instinto maior que é o da sobrevivência, o da conservação que é peculiar a todos os animais e afirmamos que não nos descuidaremos nem desertaremos.
À medida que vamos, a cada 24 horas, evitando o primeiro gole começamos a entender melhor sobre a doença, a Irmandade, o Programa e ao mesmo tempo perdendo o medo, nos sentindo protegidos, fortalecidos e confiantes.
Passamos a ter certeza de que nossa atividade, nossa boa vontade e o desejo de praticar o bem, nos beneficiarão espiritual e materialmente.
Quanto mais nos esforçarmos em prol dos companheiros mais venturosos seremos.
O propósito primordial, levar a mensagem, nossa busca pelo aperfeiçoamento intelectual e moral nos ajuda a enfrentar as dificuldades do dia-a-dia, nos enchemos de esperança e a certeza de que a sobriedade nada mais é do que a transformação em novo ser.
Enfim, acreditamos em nós mesmos!
Mas, como diz nossa Oração: devemos ter Sabedoria para distinguir e verificar de que lado estamos: do que crê, estuda e pratica os princípios ou daquele que, inadvertidamente, finge crer, somente ilustra o intelecto, através da literatura, sem que seja verdadeiramente tocado pela espiritualidade?
É possível identificar os que representam: são os que permanecem cheios de mágoas, rancor, medos, ressentimentos e se orgulham desse comportamento, mas os que procuram evoluir estão em busca de humildade, cooperação, respeito ao outro; vivenciam os princípios e colocam, como diz a 12ª Tradição, acima das personalidades.
Se assim não o fizermos, nos manteremos nos Grupos a vida toda, comparecendo às reuniões reclamando dos companheiros, acusando a sociedade e os familiares pelos desacertos, insatisfeitos com a vida que levam, achando sempre que merecem mais do que conseguem. Estaremos dentro do círculo, sem adentrar ao triângulo. Revoltados, rebeldes, queixando-se e sofrendo.
Cabe a cada um de nós, não só fazer o inventário moral, mas nos perguntarmos, com base nos Passos e Tradições de A.A.: - eu procuro compreender e aceitar meus companheiros? Entrego-me à vontade de Deus? Ou só penso NELE quando estou no sufoco? Admito minhas impotências? Procuro levar a mensagem de A.A.? Oro e medito? Coloco os princípios acima da personalidade? Sou sincero e honesto comigo mesmo e com meus companheiros? Estou integrado no Serviço?
É óbvio que o conhecimento, por si só, não nos torna santos de uma hora para outra, entretanto é necessário que compreendamos que somente alcançaremos nossos objetivos se tivermos o firme propósito de nos modificar, nos transformar moralmente e vivenciar o Programa de A.A.

Silvia


RECUPERAÇÃO E APADRINHAMENTO

Ninguém conseguirá efetivamente ter acesso a um bebedor problema no sentido de transmitir a mensagem de recuperação de Alcoólicos Anônimos senão um outro alcoólico.

O Poder Superior escolheu a nós, homens e mulheres, seres completamente derrotados pelo álcool e nos concedeu a graça para transmitir a mensagem de recuperação do alcoolismo. Através de nossas experiências sentimos necessidade de cada vez mais termos contato com outras pessoas ainda nas garras do poderoso álcool no sentido de mantermos nossa sobriedade. Esta necessidade contínua nos leva ao apadrinhamento. Apadrinhamento este que se inicia com uma abordagem e o convite para conhecer uma sala de Alcoólicos Anônimos e se torna mais efetivo quando, através do nosso conhecimento como membros conhecemos o programa de recuperação. Sutil e simples ele nos é apresentado através dos Doze Passos, Doze Tradições e dos Doze Conceitos.

O apadrinhamento é simplesmente um outro modo de descrever o interesse especial e continuo de um membro experiente, que pode significar muito para um recém-chegado que vem para Alcoólicos Anônimos em busca de ajuda, desejando sinceramente parar de beber, para se livrar da confusão que o alcoolismo provoca.

A experiência demonstra, claramente que os membros que mais se beneficiam do programa de recuperação sugerido por Alcoólicos Anônimos e os Grupos que fazem o melhor trabalho de transmitir a mensagem aos alcoólicos que ainda sofrem são aqueles para quem o apadrinhamento é importante demais para ser deixado de lado.

Hoje, compreendemos que apadrinhamento é muito mais do que se presentear com uma ficha de ingresso o companheiro que está chegando.

Apadrinhamento é a perpetuação do nosso propósito primordial; é troca de experiência; é mudança de comportamento, é uma busca diária de transformação de vida, é honestidade, fraternidade e exemplo de recuperação.

Seomára


As Minorias em A.A.

Foi preciso aceitar ambas as condições para entrar em recuperação.
Sou uma alcoólica em recuperação só por hoje, e sou homossexual.

            O motivo que me leva a escrever sobre minhas experiências é acreditar que estou ajudando a mim mesma e poderei estar ajudando mais pessoas como eu.

            Em 1978, vim para São Paulo com um pensamento na cabeça: queria mudar a minha vida. Eu já bebia, mas ainda pouco. Minha mãe tinha falecido e isso foi muito para eu suportar; a dor era muito grande e eu queria ter morrido junto com ela.

            Havia também uma moça pela qual eu estava apaixonada. Vindo para cá, eu acreditava que esqueceria tudo isso e seria outra pessoa. Não foi o que aconteceu, minha vida tomou outro rumo. Joguei-me na bebida a pretexto de fugir da solidão e de mim mesma. Eu não tinha coragem de assumir que era homossexual. Já havia percebido que o modo como eu bebia era diferente e que só parava quando estava bêbada.        Eu era muito tímida e a bebida "me dava coragem". 

            Com o passar dos anos, bebendo sempre mais e misturando os meus sentimentos, comecei a gostar de uma patroa que tive. Ela era muito boa comigo e isso me fazia sofrer, pois ela me tratava como uma filha. Eu saía de casa e ia beber nos bares. Saí com o primeiro homem, já que não conseguia me aproximar de uma mulher. Eu me violentei muito e tinha muita bronca de mim mesma, pois tudo que eu tentara fazer não dera certo. Mentir passou a ser a minha verdade e chegou um tempo em que eu mesma já não sabia o que era verdade e o que não era. Sentia-me infeliz e a autopiedade tomou conta de mim. Assim foi durante vinte anos. 

Quando cheguei em A.A., não tinha convicções, só acreditava no álcool.

            Queria "ver" Deus para acreditar na Sua existência e por isso as coisas não deram certo para mim - faltou fé.

            Eu só tinha um pensamento, a morte, sempre achava que iria morrer a qualquer momento e que era só uma questão de horas.

            Hoje, vejo que mudei. Acredito em mim e principalmente, em Deus, como O entendo.

            Ao ingressar em A.A., eu não tinha em mente falar sobre a minha vida íntima, pois já tinha sofrido muita discriminação e achei suficiente admitir meu problema com a bebida. Com o passar dos dias, percebi que me enganei, que estava mentindo e dando voltas para comentar um relacionamento homossexual.

            Apesar de ser alcoólica como todos no grupo, eu me sentia diferente por causa da minha condição sexual. Como consequência, sofri uma recaída. Então vi que não poderia continuar mentindo. Eu precisava dizer a verdade, para o meu próprio bem.

            Comecei a frequentar reuniões de propósito especial feminino, com a intenção de falar sobre a minha situação, mas a dificuldade continuou grande, pois não se falava muito em sexualidade e eu sentia preconceito nas outras pessoas quando se falava de homossexualismo.

            Um dia, participando de um Ciclo de Tradições, ouvi comentários preconceituosos de alguns companheiros sobre a homossexualidade e surgiu em mim a vontade de estar numa reunião de companheiros (as) homossexuais... E, há pouco tempo, essa ideia se tornou realidade. Conversando, um grupo de homens e mulheres que têm em comum ambas as condições e, portanto, passam pelas mesmas dificuldades, resolveram iniciar uma Reunião de Propósitos Especiais para Homossexuais e simpatizantes. Agora não estou mais fazendo a minha recuperação pela metade, mas sim por inteiro, e ajudando outros (as) que gostariam de participar conosco.

            Hoje, sem beber há algumas 24 horas, estou tentando trabalhar meus defeitos e viver bem. Sinto-me bem resolvida em relação à minha homossexualidade e ao meu alcoolismo. Eu me encontrei e sou feliz, só por hoje, graças a um Poder Superior. Estou no Serviço da Irmandade e gosto muito de participar dos Três Legados de A.A., pois assim minha recuperação é completa. 

Anônima


EVITE O 1º GOLE


            Assustado, suado e desorientado, acordei ou estou sonhando? São quatro horas da manhã; todos dormem menos eu. Junto a mim aquela incontrolável vontade de beber.

            Que dia é hoje, perguntei? Descobri que era o primeiro dia depois de haver conhecido A.A.

            Fui em A.A.? - É fui! Que lugar de doido! Tão doido que alguma coisa me incomodava; era um tal de "evite". Evitar o quê? Evite o 1º Gole!

            Forcei o raciocínio; minhas mãos tremiam e minhas pernas não suportavam o peso do meu corpo. Precisava desesperadamente tomar "uma", um gole ... o 1º gole! Lembrei-me! Evite o1º Gole!

            Aquela frase me causou um solavanco pelo corpo todo.

            Lembrei-me das pessoas que estavam no Grupo na noite anterior repetindo a mesma frase: - Evite o primeiro gole, só por hoje. Sem perceber, minha salvação começara ali. O recomeço de uma nova vida.

            Foi em junho, mês do meu aniversário que comecei a fazer parte de Alcoólicos Anônimos. Vários outros dias vieram e nesses dias evitei o 10 gole, o 1º bar, o primeiro amigo, o 10 fracasso, enfim, evitei tomar a primeira e só parar na última, pois há alguns dias atrás já não eram doses e sim, litros. Consegui finalmente viver a experiência de ser um alcoólico em  recuperação.

            Após várias 24 horas em A.A. e evitando o primeiro gole reconstruí minha vida, reorganizei meu caráter, reconquistei meus familiares; amei novamente minha esposa e minhas filhas.

            Hoje sou feliz a meu modo. Tenho sobriedade, tenho paz e serenidade para aceitar aquilo que sou.

            Consigo ver agora o quanto compliquei e tornei difícil algo tão simples de entender quando não se é alcoólico: "Evite o primeiro gole"!

            Obrigado a todos; meu nome é Wagner; sou um alcoólico em recuperação e graças a um Poder Superior hoje eu não bebi: - evitei o primeiro gole!

                                    WAGNER


UM PLANO PARA VIVER 

            Dia a dia tentamos nos aproximar um pouco da perfeição de Deus.

            Não precisamos ser consumidos por sentimentos de culpa, basta traçarmos um plano para viver à maneira de A.A.

            Porém, quando descobri pela primeira vez que não havia um único "não faça" nos Doze Passos fiquei perturbado, porque esta descoberta abria de repente um portal gigantesco. Somente então fui capaz de perceber o que A.A. representa para minha vida:

A.A. não é um programa de "não faça", mas, de "faça".

A.A. não é uma lei marcial, é liberdade.

A.A. não é choro sobre os defeitos, mas suor sobre como colocá-los em ordem.

A.A. não é penitência, é salvação.

A.A. não é "pesar por mim", por meus pecados, passados e presentes.

A.A. é "Louvor a Deus" pelo progresso que estou fazendo hoje.

Uma nova vida me foi dada ou, se preferem, um "plano para viver" que realmente funciona.

Todo dia procuro elevar meu coração e mãos em agradecimento a Deus por me mostrar um "plano para viver" que realmente funciona através de nossa maravilhosa Irmandade. Mas, o que é exatamente este "plano para viver" que "realmente funciona"?

Para mim é a prática dos Doze Passos.

É o que tem acontecido de melhor em minha vida quando venho adquirido a percepção de um Deus que me ama incondicionalmente e a esperança de que, em cada novo dia, há um propósito para minha existência.

Sou realmente abençoado nesta Irmandade.

ANÔNIMO


AUTO-AVALIAÇÃO

 

Diante de tudo que A.A. tem me oferecido, senti necessidade de verificar se sou grato o suficiente com a Irmandade.

Para tanto, elaborei algumas perguntas que julguei importante meditar e respondê-las com a maior sinceridade possível, pois poderia enganar companheiros, mas nunca o Poder Superior que ele acredita.

1. Será que estou sóbrio ou apenas abstêmio do álcool?

2. Será que participei de todas as reuniões em que o Grupo esteve fazendo o inventário.

3. Desde que encontrei a sobriedade tenho participado das reuniões com frequência ou apenas das reuniões que preciso para me manter abstêmio do álcool?

4. Será que com minha participação em A.A., contribuo para melhorar o programa ou tenho atrapalhado mais do que ajudado?

5. O grupo se tornou autossuficiente já há algum tempo; tenho contribuído com minha parte ou será que esta responsabilidade deixei para os meus companheiros resolverem?

6. Quanto aos encargos do grupo: eu já me ofereci a fazer alguma coisa ou será que sempre arrumei uma desculpa alegando impossibilidade de fazê-la

7. Quando o grupo vai fazer visitas a outro grupo ou a algum outro evento que se relacione com Alcoólicos Anônimos, tenho participado ou simplesmente alego que tenho compromissos?

8. O que eu acho sobre reuniões de literatura. Tenho participado? Tenho incentivado os companheiros a fazer esse tipo de reunião ou simplesmente não vou a elas?

9. Será que estou sendo honesto comigo mesmo e com o Grupo ao colocar minha contribuição na sacola?

10. Tempo é questão de preferência: será que tenho pensado nisso ou somente vou às reuniões quando não tenho o que fazer?

11. Sempre ouço falar nas reuniões a respeito dos 12º Passo, que se constitui basicamente em transmitir a mensagem aqueles que ainda sofrem. Será que tenho feito isso com amor e dedicação?

12. Será que a minha mensagem a outro alcoólico na ativa terá valor se eu não estiver presente na reunião no dia em que ele chegar pela primeira vez? Com estes questionamentos criei um mecanismo capaz  de avaliar minhas falhas e negligências com o programa de Alcoólicos Anônimos fazendo-me lembrar a todo momento que um dia estivera caído e a mão amiga de A.A. me colocou em pé novamente.

ATAYDE L.


ONDE ESTÃO NOSSAS MULHERES?

            Neste mês de março, dedicado à Mulher, o Reviver não poderia deixar passar em branco esta data e relembrar nossas mulheres AAs.

            Algumas são simples, outras chiques, muitas humildes e batalhadoras. Mães, empresárias ou donas de casa! Amam intensamente, não somente enquanto dura, mas enquanto dura sua vida.

            Lembramos neste dia as bravas mulheres da nossa história que levaram chibatadas, marcas de ferro e fundaram quilombos; de outras que se tornaram cidadãs e imaginaram todas votando. Daquelas que acenderam todas as espécies de velas e algumas arderam nas fogueiras.

            Umas, lutaram com armas e outras combateram sem elas. Algumas escreveram seus sentimentos e outras, nem mesmo assinavam seu nome. Umas doutoras, outras professoras, mas todas  aprenderam com a vida. Há as que nadam, correm, pulam e as que sustentaram a partida... não se comportaram bem... amaram de todas as maneiras... beberam e usaram drogas...

            São estas e tantas outras que existem dentro de cada mulher AA com uma única certeza:  “Não estamos mais sozinhas!” . Contam com as experiências, forças e esperanças de todos os companheiros da Irmandade de Alcoólicos Anônimos para se tornarem íntegras, felizes e úteis!               

            Recentemente fui visitar um grupo numa pequena cidade  e ao final da reunião uma companheira veio agradecer minha presença feminina no grupo. Desabafou sua dificuldade em ser a “única” mulher alcoólica do lugar.          Sabemos muito bem que isto não é verdade. Existem mulheres alcoólicas sofrendo sua dor e deixando de procurar ajuda por medo de serem desmoralizadas perante a sociedade que permanece enrijecida diante do preconceito e discriminação de gêneros.                                                                A cultura machista, mais comum em cidades menores, impede a passagem pela porta de uma sala de A.A., mais estreita às mulheres.                 

Quando ingressei na Irmandade de A.A., ouvia com muita atenção o trecho do preâmbulo que diz: “Somos uma irmandade de homens e mulheres...” Sentia-me favorecida, acolhida, incluída no todo, pela Unidade.

Contudo, olhava para o lado e me perguntava: “Onde estão as mulheres alcoólicas desta cidade de um milhão de habitantes? Éramos somente nós, cinco mulheres, as únicas alcoólicas desta cidade?”                                                                   

Vivi o mesmo drama da companheira que se sente sozinha e o pior é que às vezes eu mesma me discriminava. Era difícil encontrar identificação nos depoimentos dos companheiros, mas eu me esforçava. E com esperança a fim de resolver meu problema comum: o alcoolismo... Agarrava-me nisso.                     

            Às vezes me sentia “envergonhada por ter sido a única mulher da família vítima do alcoolismo e de ter admitido que perdi o domínio da minha vida”. A sociedade aceita mais facilmente o alcoolismo, pelo qual são acometidos os homens, principalmente em cidades provincianas que têm nome de família a zelar e status social a preservar. Mesmo quando a doença já não tem mais controle, ainda assim, escondem ou tentam esconder da própria. Já vi na família quadros tristes da famigerada NEGAÇÃO. Voltando ao preâmbulo, nos dias atuais pouco vejo na sociedade discursos ou falas que incluam vocábulos femininos no seu conteúdo. Os artigos, pronomes, substantivos femininos são engolidos pela generalização masculina. Em auditórios cheios de mulheres e poucos homens, ouvem-se: “Boa noite senhores...”, “peço a todos a gentileza...”, “Você mesmo pode encontrar a saída”... e daí seguem-se inúmeras situações cotidianas que passam despercebidas, mas que mascaram a discriminação de gêneros.   

            A.A. concede a nós mulheres, o sentimento de pertencer e fazer parte. Somos homens e mulheres que compartilhamos nossa recuperação. Recebi a dádiva do Poder Superior de me mudar para o Rio de Janeiro onde encontrei muitas mulheres nas salas de A.A. Minha recuperação está ainda mais fortalecida porque não me esforço mais para encontrar identificação. Companheiras contam suas histórias sem medo do julgamento. Compadeço-me das companheiras solitárias das pequenas cidades e agradeço a CORAGEM de cada uma por terem vencido as barreiras do preconceito.          

            Cada mulher que passa pela porta, quando entra e fica, me sustenta dentro de A.A. e é maravilhoso conviver com companheiras atuantes em A.A. contando com bravura suas histórias, trabalhando no CTO, participando de Comitês de Serviços e cumprindo encargos importantes em A.A. como um todo e sendo responsáveis pelas tradições.       

            Sou uma mulher em A.A., dentro de uma Irmandade de homens e mulheres que respeitam princípios igualitários, incluídos na mesma oportunidade de uma vida digna e feliz.

JULIANA


 

 

Se você não tem problemas com o alcoolismo, ótimo! Mas, se conhece alguém que sofre e não sabe que há uma saída após esta leitura poderá orientar.

Share
criarsite.com